MEDO CLÁSSICO | “Frankenstein” é imortal?

Um clássico é sempre a promessa de uma leitura intensa. Um livro que passa na prova do tempo, sobrevive as mudanças do mundo e consegue se comunicar com o leitor há mais de um século merece o título de clássico. Mais que isso: um livro que mexe com o imaginário de gerações ganha o direito de ser lido por todos ao menos uma vez na vida. Frankenstein, obra da qual eu me proponho a compartilhar algumas palavras, é um exemplo digno dessa minha afirmação. A narrativa criada e lapidada por Mary Shelley percorre o tempo com uma força inabalável e consegue – de maneira única e incrivelmente inteligente – alcançar um novo público com a naturalidade que poucas obras conseguem. Foi assim, com essa qualidade natural, que este clássico me atingiu, gerando por consequência uma das minhas grandes experiências literárias. Com isso, um questionamento surgiu e tomou conta da minha mente: seria Frankenstein imortal? É o que pretendo refletir, compartilhando com você, leitor interessado pela mais bela arte, um pouco da minha experiência de leitura. Permita-me divagar, mesmo que de forma amadora, sobre uma narrativa que mexeu comigo e, ao final, compartilhe suas impressões e me diga se tenho alguma razão sobre o assunto.

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Para começar, não me ocupo em falar sobre o livro em si, pois a história que dá vida a Frankenstein é de conhecimento geral, tornando desnecessário o acrescimento de palavras que aqui só iriam alongar o meu texto. Prefiro tentar alcançar uma maneira mais concisa de abordar a obra e, para isso, vou direto a pergunta já citada que vem perambulando na minha cabeça desde o término da leitura. Frankenstein é imortal? Sabemos que a obra-prima de Mary Shelley passou pela prova do tempo, assim como sabemos que isso só foi possível devido a sua qualidade e que por muito mais tempo ela estará viva. Isso, porém, não é o suficiente para obter a resposta que procuro. Imortalidade é algo grande e difícil de alcançar, mesmo para os grandes clássicos. Preciso estar atento para tentar enxergar algum indicio de imortalidade, qualquer coisa, por menor que seja, que aponte para a vida eterna desse clássico.

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Antes de continuar com o questionamento, preciso falar sobre uma mudança que Frankenstein operou em meu perfil, uma alteração no pensamento que me vem à mente quando penso na palavra clássico. Anteriormente, eu só conseguia visualizar esse tipo de obra – um clássico – como algo atemporal, que sempre estará presente, independente de qualquer condição. Hoje, penso um pouco diferente, e isso se deve ao livro de Mary Shelley. Passei a enxergar e acreditar que um clássico, por ser profundo, tem mais de uma camada e, portanto, mais de uma definição. Atualmente vejo mais possiblidades (citando aqui apenas as principais) que um clássico pode conter: atemporal e imortal. A primeira tem seu significado relacionado com o tempo, sendo ele – o tempo – indefinido. A segunda, como o próprio nome esclarece, não tem seu ciclo diretamente relacionado com o tempo. Um clássico atemporal pode ter um elo duradouro com as pessoas, passeando à vontade por gerações e se mantendo sempre relevante; porém, uma mudança extrema em nossa realidade seria o suficiente para abalar sua relevância, fazendo seu brilho como história permanecer, mas seu fator atemporal diminuir. Um clássico imortal, por sua vez, não tem sua relevância ameaçada pelo tempo. O imortal tem em sua composição algum elemento que o torna resistente aos danos da mudança, algo primordial que irá sempre preservar e ligar a tal história com as pessoas, mantendo assim o seu legado intacto.

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Foi movido por essa nova percepção que a pergunta central desse texto surgiu, e é com base nela que eu prossigo para tentar fundamentar a resposta que nesse momento já tenho comigo. Frankenstein é imortal? Acredito que sim. Sua narrativa, numa análise breve, fornece várias evidências que ajudam a sustentar essa teoria do imortalidade. Como leitor, percebi que o livro é construído e conduzido para despertar sentimentos e, em meio a isso, algumas reflexões. É nesse campo dos sentimentos, aliás, que o livro se destaca e começa a construir seu caráter imortal. O intrigante doutor Frankenstein, por exemplo, é um personagem repleto de sentimentos e emoções. Qual sentimento lhe motiva a levar adiante o projeto da criatura? Qual emoção o leva a abandonar sua criação? Ganancia, horror, repulsa, etc. É usando a natureza humana como suporte que a obra cresce; é sabendo quais pontos tocar – aqueles que todos temos, mesmo que escondidos, e carregamos conosco a vida inteira – que o livro consegue criar sua imortalidade. Afinal, o que vamos possuir até o fim dos tempos, sem exceção, a não ser nossos sentimentos e emoções? O mundo mudou e irá mudar tantas vezes mais, porém as sensações provocadas pelo que temos ao redor continuarão existindo e, se algumas coisas podem estabelecer um vínculo comunicativo e nos afetar de alguma forma, Frankenstein é uma delas.

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Muitas coisas podem ser ditas a respeito de Frankenstein – estudos detalhados e observações muito mais profundas são possíveis ao olhar atenta e curiosamente para a obra-prima de Mary Shelley –, no entanto, isso que compartilhei era a minha pretensão no momento. Era a questão do imortal que eu queria ressaltar. Tenho certeza que Frankenstein jamais deixará de existir: sua estrutura polida e sua narrativa lapidada fornecem o necessário para que o clássico se sustente pela eternidade. Sua tão conhecida história será para sempre reverenciada e, como recompensa, teremos uma obra que consegue provocar sentimentos e criar reflexões sempre ao nosso alcance. O prazer que eu tive será o mesmo – no mínimo um prazer equivalente – ao que outros leitores terão ao adentrar nas páginas da obra; a experiência será a melhor possível, pois as linhas desse clássico são imutáveis e não dependem da época para transmitir seu poderoso efeito. Os fãs gostam de dizer que Frankenstein está vivo (it’s alive) e comemorar essa verdade que por si só é extremamente satisfatória, porém, o verdadeiro motivo de comemoração, a meu ver, é saber que essa obra-prima nunca morrerá. O clássico imortal, como aqui defini, terá contato com outros milhares de leitores por milhares de anos sem a interferência de qualquer prazo de validade. A única data que podemos dar a Frankenstein é 1818, ano de seu surgimento; fora isso, nenhum número se relaciona com a obra. Apenas relacione Frankenstein com o símbolo do infinito e deixe-o viver – em algum momento esse clássico irá lhe atingir em cheio e, quando isso acontecer, você verá que o imortal existe.

Livro recebido em parceria com a DarkSide®

 

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