RESENHA | “Horário de Verão” distorce o tempo para ajustar os ponteiros da literatura nacional

Às vezes um sacrifício é necessário. Às vezes precisamos deixar o comum de lado, tomar distância do que nos é confortável para assim dar um passo adiante. Tudo o que precisamos, às vezes, é de uma pequena distorção. Algo que mexa com as estruturas. Horário de Verão é um exemplo de obra para aqueles que, como eu, estão dispostos e interessados em sair do espaço comum para experimentar o diferente. Não que a obra em questão seja uma das grandes invenções do século XXI – muito pelo contrário, existe muito do que é antigo permeando essa história, felizmente –, mas algumas distorções, por menores que sejam, tornam este livro um ponto fora da curva. É sobre detalhes que fazem a diferença que eu quero comentar, pois foram eles, os pequenos detalhes, que me fizeram gostar tanto dessa história.

horarioverao

Distorção é a palavra-chave, não consigo pensar em nenhuma outra que case tão bem com o conteúdo desse livro. Horário de Verão conta de maneira muito precisa a história de três garotos que se envolvem com o sobrenatural. Três garotos dos tipos mais inocentes, cada qual com sua personalidade, que se veem obrigados a lutar com algo muito antigo, tirando forças da pura determinação – e por que não da própria inocência? – presente na infância de qualquer um. Três garotos motivados pela força da amizade. Até aí tudo normal, você me diz. Mais uma história de crianças que se metem com o que não devem, mais uma história de garotos em enrascadas, mais uma típica aventura, daquelas que estamos tão acostumados. Não é só isso. É aqui que os detalhes, aqueles que fazem a diferença, começam a aparecer. O que faz com que Horário de Verão se destaque é a sacada de alterar o fator tempo – um ponto que você terá que ler para entender, seria inviável explicar aqui –, uma mudança que a principio seria notada apenas nos relógios, mas que logo percebemos sua importância para o livro em geral.

distorcao

Surpreende-me o fato de uma única ideia transformar uma narrativa por completo. O tempo faz total diferença. É esse pequeno detalhe, porém grande ideia, que destaca Horário de Verão entre os livros de seu gênero. É essa pequena distorção que tira a obra do comum e a afasta de qualquer clichê. Tudo é afetado a partir de um único ponto – personagens, clima, ritmo –, toda a estrutura ganha forma através disso. O livro surpreende ao incluir uma novidade tão funcional em meio a elementos clássicos do horror e do suspense, agrada com seu clima nostálgico e comove com seu tom de inocência e esperança. É, sem dúvida alguma, um livro com a capacidade de ir além. Uma história que passeia entre gêneros, usa os melhores recursos e consegue se firmar ao longo das páginas, não decepcionando no meio do caminho.

camadas

Horário de Verão também chama a atenção com suas camadas – nem sempre a narrativa segue de forma linear. Muitas inserções são feitas, levando a trama para lugares diferentes e dando ao leitor a oportunidade de experimentar as mais diversas sensações. Essas camadas ajudam a dar profundidade, tornando o livro ainda mais atrativo e tirando-o de qualquer nível raso. No geral, são nuances muito bem-vindas que acrescentam valor e demonstram o cuidado literário da obra.

autor

Neste romance, Everaldo Rodrigues desenvolve o que, a meu ver, é uma de suas principais características: criar entretenimento inteligente. Sua literatura é capaz de atrelar o mais puro entretenimento – um livro que cumpre a função de distrair positivamente o leitor – com a inteligência de toda boa arte. Essa é uma característica que me agrada e que merece ser destacada quando vista em um autor, pois muitos produzem entretenimento de qualidade, mas poucos alcançam o que chamo de entretenimento inteligente. O autor consegue criar algo voltado para o prazer da leitura na mesma medida que transmite recados nas entrelinhas, fazendo de sua literatura um canal para uma mensagem maior. Everaldo tem uma escrita empolgante e nitidamente bem trabalhada, sua narrativa é constante e construída com esmero, sem nenhum tipo de afobação. Horário de Verão é a prova de seu talento: um romance que remete ao clássico sem deixar a autenticidade de lado.

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Horário de Verão é, em suma, um ajuste de ponteiros para a literatura nacional. Uma obra que não demonstra apenas qualidade, mas também o talento e a eficiência que uma história Made in Brazil é capaz de alcançar. Um livro que eu faço questão de indicar pelo entretenimento, profundidade e inteligência de suas páginas e pela esperança de ver o espaço para literatura nacional cada vez mais amplo, acolhedor e, acima de tudo, justo. Dê uma oportunidade para as sensações de suspense, medo e agonia estampadas em cada linha; uma chance para os sentimentos de amizade, amor e nostalgia registrados com afinco durante a história. Dê um voto de confiança, leia, pois aqui eu entrego a garantia de que não haverá arrependimento – um fruto da plena convicção de que não haverá leitor saindo ileso dessa obra.


Horário de Verão é um romance publicado de maneira independente por seu autor, Everaldo Rodrigues. Assim sendo, você pode encontrar e adquirir seu exemplar das seguintes formas: Clube de Autores (versão impressa, com ilustrações) e Amazon (versão digital, sem ilustrações). Acompanhe o autor pelo Facebook e conheça o Estante Etérea, seu canal literário no YouTube. Acerte seu relógio, valorize a literatura nacional e boa leitura.


 

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