Entrevista insana | “Além da Carne” com Cesar Bravo

É com muito prazer que eu escrevo essas palavras. Em meio às travessuras de outubro, tive a honra de entrevistar o Cesar Bravo, meu autor nacional favorito. Se você, assim como eu, gosta de terror e não subestima a literatura nacional, com certeza sabe de quem eu estou falando. Cesar Bravo se destacou no mercado editorial com suas histórias extremamente insanas e viscerais; seus contos, novelas e romances foram publicados de forma independente na Amazon e conquistaram a atenção de diversos leitores. Até mesmo os mais exigentes fãs do gênero se renderam ao talento inegável do autor. Agora, uma nova fase: seu trabalho foi abraçado pela DarkSide Books e seu novo livro, Ultra Carnem, será lançado em novembro. A obra expande o Além da Carne (tema dessa entrevista) com quatro histórias que despem o irreal e tem como elo um olhar sarcástico de quem observa o mundo e compreende que na disputa entre o Céu e o Inferno nós somos o prato principal.

PRÉ-VENDA DE “ULTRA CARNEM” NA AMAZON

Tenho certeza que muitos leitores passarão a enxergar a literatura nacional com outros olhos ao ler suas obras. Espero que essa entrevista seja interessante aos que já são fãs e sirva de porta de entrada para quem ainda não o conhece. Desde já agradeço a atenção do autor e a colaboração de alguns convidados especiais.

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Ilustração f*#@^ do Lucas Dallas

P: É uma honra te entrevistar, Cesar. Para começar, eu gostaria que você explicasse o que é o Além da Carne para quem ainda não conhece. Como você define seu livro?

R: Olá, Sr. Machado! Acredite, a honra é toda minha, todo esse interesse e confiança são baterias extras em minha carreira literária. Bem, Além da Carne é uma coletânea de histórias, gentilmente chamada de Contos Insanos, publicadas pela plataforma da Amazon. Foi escrito por volta de 2011. Eu definiria Além da Carne como uma incursão a um reino de horror absoluto. Trata-se de uma coletânea sem muitos pudores, um compêndio de pensamentos que tem como objetivos assustar e provocar reações intensas.

P: Em A cor da tinta, primeiro conto do livro, sua escrita é um pouco diferente, algo completamente visceral e ao mesmo tempo bonito de ler. Como foi escrever esse conto? Você teve a influência de algum autor específico?

R: De fato, existe alguma diferença nesse conto para o restante do livro. O que eu posso dizer é que essa linguagem será explicada em breve, ela teve sim um objetivo obscuro. Sobre escrevê-la, bem, eu precisava de um toque de suavidade para descrever todas as atrocidades presentes no conto. A linguagem mais refinada, mais poética, ajudou nisso, a colocar alguma beleza entre as vísceras e o sangue. Especificamente nesse conto, creio que fui mais fortemente influenciado por Clive Barker e Lovecraft, mas como sou um leitor de poesias, existem mais autores sob esse manto, um panteão deles. Especificamente nesse conto, creio que fui mais fortemente influenciado por Clive Barker e Lovecraft, mas como sou um leitor de poesias, existem mais autores sob esse manto, um panteão deles.

P: Pagamento cigano é a minha história favorita do Além da Carne, a frustração do personagem Marcos é muito intensa. Existe algo autobiográfico nisso? Você já se sentiu tão frustrado quanto seu personagem?

R: Fico feliz em saber que gosta do conto, terá uma ótima surpresa em breve! Sobre Marcos, ele é um sacana adorável, não acha? Quando o criei, pensei apenas em alguém com dificuldades financeiras, era o que eu mesmo vivia na época (essa parte é bastante relacionada ao autor), eu estava desempregado, lançando meus primeiros volumes na Amazon, para ser sincero, o que eu tinha de relevante na vida era a esperança de que meus livros lançados fossem lidos e o apoio incondicional de minha esposa acerca de um futuro nebuloso. Acredito que já tenha me sentido na pele de Marcos várias vezes tendo como base relações profissionais.

P: Uma das coisas que mais chama a atenção no livro é o fato de existir uma ligação entre todos os contos. Pode nos contar um pouco sobre como surgiu a ideia de criar uma coletânea de contos que se conectam?

R: Eu não saberia responder com certeza de onde nasceu a ideia. O fato é que eu tinha três ou quatro contos com uma temática muito próxima (intensidade, nível de insanidade, gore). Então, com base em minha experiência literária prévia — O Rei de Amarelo (Robert W. Chambers), Uma Sombra Passou Por Aqui (Ray Bradbury), Livros de Sangue (Clive Barker) —, eu pensei: “por que não?”. Foi nesse ponto que tive a ideia da tinta cigana, do menino Wladimir Lester, e do que viria a ser a base para meu primeiro romance publicado fisicamente. Parece incrível como uma ideia simples e despretensiosa é capaz de mudar nossas vidas, mas é exatamente assim que acontece.

P: Todos os contos foram escritos a partir do zero (exclusivamente para o livro) ou você compilou/adaptou material antigo para formar a coletânea?

R: Não, apenas dois contos nasceram com a ideia de interligação amadurecida. A maior parte de Além da Carne foi extraído de minha primeira coletânea, Calafrios da Noite. Cito entre eles “A Fera”, “A expressão da Desgraça” e “O melhor do Contrato”. “Pagamento Cigano” era um noveleta independente, não pertencendo a nenhum dos volumes.

P: Além da Carne é um dos livros mais pesados que já li. Era a sua intenção escrever um livro tão pesado?

R: Para ser sincero, nunca sei quando e como minhas obras terminarão. Quando começo um livro, sei pouco dos personagens, tenho apenas uma base para a trama e, no caso de Além da Carne, não estou certo se tinha, sequer, esses dois pontos de partida. O que eu tinha na alma era algo a dizer. Histórias que me sufocavam, coçavam, personagens que exigiam se desnudar e se expor. A violência do livro foi minha transpiração, era o que eu podia devolver ao mundo naquele momento. Havia uma promessa de crise no ar, desemprego, havia o medo de um futuro tenebroso. Nesse contexto, penso que eu não seria capaz de produzir uma obra “fofinha” nem que me pagassem muito dinheiro.

P: O livro aborda assuntos desconfortáveis. Algum deles te incomodou ao ponto de ser difícil de escrever?

R: Claro que sim. A história “A Fera”, sem dúvida. Porque mesmo com toda a semelhança profissional com a vida miserável de Marcos, o bullying sempre me incomodou bem mais. Tive oportunidade de estudar em colégios difíceis, onde você precisava aprender a se defender depressa para não beber água da privada. Conheci “Serginhos” aqui e ali, algumas vezes fui Serginho. Foi uma história que mexeu comigo, tocou minhas próprias feridas, por assim dizer.

P: Como foi o processo de escrita? Você acha que escrever o Além da Carne foi diferente em algum sentido?

R: Meu processo criativo mistura disciplina e explosão (se é que isso é possível). Eu sempre tiro um tempo para escrever, todos os dias; tento ser metódico e profissional nessa parte (sou chato, muito chato). Gosto de ouvir música enquanto escrevo; Rock, Punk, Heavy Metal, ouvi muito Misfits enquanto escrevia Além da Carne. Mas quando as linhas começam a surgir a coisa toma um outro rumo. Então vem a explosão. Muitas ideias nascem sem que eu tenha total consciência das mesmas, é como perfurar um poço sem saber quanta água existe lá embaixo. Além da Carne foi mais ou menos assim — e tinha muita água, meu amigo, muita água.

P: O que esperar do futuro de Lucrécia? – Everaldo Rodrigues, Estante Etérea

R: Espere conhecê-la melhor. Lucrécia talvez tenha sido meu personagem mais profundo; mais corajoso e determinado. Ela irá levá-lo até os confins do além-mundo, até o bloco mais “quente” do principado do fogo — vocês vão adorar essa parte! Lucrécia, assim como o menino Lester, nunca me saiu da cabeça.

P: O quanto você teve que entrar no mundo cigano para construir sua história? Qual foi a sua forma de pesquisa? – William Oliveira, Literatura Dark

R: De um certo modo, durante minha infância eu sempre estive às margens do mundo dos ciganos. Morei em várias cidades pequenas no interior de São Paulo, e os ciganos sempre estiveram por perto. Com suas roupas, sua mágica, sua aura de mistério e perigo. Conheci vários deles quando era adolescente, sempre tive muita curiosidade sobre esse povo cuja coragem desafia nossa lógica urbana. Deixei que alguns deles (delas) lessem minha sorte e posso dizer que o cigano certo saberá mais através de suas mãos do que sua mãe sabe desde seu berço. Algumas informações obtive através da internet e de material dedicado, mas o sentimento cigano, o modo como nossa sociedade vem degenerando esse povo, essa parte veio de minha própria vivência.

P: Qual conto você mais gostou de escrever? Por quê? – Lucas Dallas, Pulp Fictions com Lucas Dallas

R: Do Além da Carne – Contos Insanos, gostei muito de “A Expressão da Desgraça”. É um texto em primeira pessoa, divertido, pervertido!, e que me arranca sorrisos até hoje. Tive sorte em conseguir escrevê-lo e encaixá-lo na coletânea, é o que penso. Se você considerar o restante do Além da Carne notará que eu corri um sério risco ao inseri-lo na obra, mas… bem… “Sem risco sem glória”, não é o que dizem? Eu acho que funcionou bem.

P: Para encerrar, o que podemos esperar agora que você é um autor presente no catálogo da DarkSide Books? Gostaria de dizer algo aos leitores? Agradeço pela atenção e desejo boa sorte com o que vier daqui em diante.

R: Esperem o de sempre: dedicação, parceria, loucura (porque sem essas três coisas, nada na vida de um autor de horror faz sentido). Pretendo escrever para vocês por muito tempo e com muito mais qualidade. O time de peso da DarkSide tem me ajudado em todo o processo de edição e divulgação, tenho a impressão que vamos alcançar novos patamares em breve (planos, meus amigos; muitos planos).

Agradeço demais a oportunidade de falar com vocês mais uma vez, e agradeço principalmente toda a divulgação e visibilidade que vocês têm me proporcionado. Tem sido incrível conviver com leitores tão ávidos, com pessoas tão especiais. Vamos arrebentar e todos vocês fazem parte dessa história!

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Nascido em 1977, em Monte Alto, São Paulo, foi apenas recentemente que Cesar Bravo deu voz à sua relação visceral com a literatura. Durante sua vida, já teve diversos empregos — ocupando cargos na indústria da música, na construção civil e no varejo. É farmacêutico de formação. Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Transitando por diferentes estilos, possui uma escrita afiada, que ilumina os becos mais escuros da psique humana. Suas linhas, recheadas de suspense, exploram o bem e o mal em suas formas mais intensas, se tornando verdadeiros atalhos para os piores pesadelos humanos.

Saiba mais em facebook.com/cesarbravoautor

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